quinta-feira, 26 de março de 2015


No ano 1996, a então primeira dama Hillary Clinton publicou um livro intitulado It Takes a Village (É preciso uma vila). Dada a subcultura política de traição a qual emergiu Clinton, seria mais tocante renomear o livro para It Takes a Traitor (É preciso um traidor), pois essa é a experiência formadora que temos agora. É isso que significa nosso programa nacional de educação. Neste momento, enquanto esperamos notícias de Moscou, com Putin e outras figuras proeminentes desaparecendo em intervalos de dez dias após o assassinato de Boris Nemtsov, temos a ocasião de perguntar aquilo que ninguém pensou em perguntar: Qual a relação psicológica entre os traidores dos Estados Unidos e os contínuos desajustamentos das farsas moscovitas hodiernas?
Recentemente, o LA Times escreveu uma matéria sobre a Universidade da Califórnia em Irvine: “A UC Irvine odeia a bandeira americana? Não exatamente.” Dez dias atrás, uma resolução foi adotada pelo conselho legislativo da Associação dos Estudantes do campus para remover a bandeira americana dos escritórios da Associação. “A bandeira americana foi hasteada em ocasiões de imperialismo e colonialismo”, diz a resolução, que foi aprovada por uma votação de 6 a 4. No sábado após essa votação a universidade emitiu um comunicado formal dizendo que o conselho legislativo estava “equivocado”. Muitos estudantes comuns ficaram ofendidos pela decisão de 6 a 4 e surgiram protestos. Todavia, poucos manifestantes viram na origem dessa decisão um impulso traidor. Poucos reconheceram a psicopatologia insidiosa da associação de estudantes da universidade. Os que aprovaram a resolução são adultos educados, supostamente jovens, mas moralmente responsáveis por suas ações em todos os campos da vida. O que eles expressaram não foi equivocado, mas sim antiamericano. Foi também insano, e não poderia ser uma decisão tomada por pessoas psicologicamente normais.
O que esse episódio revela sobre nossas universidades é a ação de um elemento patológico. Não é necessário banir a bandeira americana na maioria dos nossos campi. É mais útil enganar o mundo ao permitir que a bandeira seja hasteada num lugar em que o significado e o espírito dela foram abolidos. Nos departamentos de ciências humanas e sociais, onde a liberdade de pensamento tem importância vital, a bandeira americana é mais odiada que amada pela faculdade e pelos estudantes graduados. Eu sei isso por experiência própria, pois fiz minha graduação na UC Irvine entre 1986 e 1989. Os professores lá promoviam o marxismo, empenhavam-se em recrutamento ativo de estudantes propensos às ideias marxistas e causavam danos às carreiras daqueles que eram antimarxistas. Naqueles dias tudo era feito silenciosamente e administrativamente. Se o sujeito se atrevesse a falar bem da América ou da liberdade de mercado, ele seria perseguido e sua reputação seria arruinada. É preferível evitar olhar para tal situação, pois é muito incômodo experimentá-la diretamente; é por isso que aqueles que se destacaram por estarem sendo perseguidos nunca foram defendidos. Eles estavam destinados a secar até morrer, e ninguém se atrevia a interferir. Afinal, quem quer problemas? É essa a beleza de uma intimidação quieta e seletiva. Quando servi de professor assistente na UC Irvine era necessário um juramento de fidelidade à Constituição dos Estados Unidos e à Constituição da Califórnia. Eu fiz esse juramento e imaginei quantos outros poderiam fazer o mesmo juramento e depois quebrá-lo sem qualquer consequência; pois o marxismo que eles promoveram tão afetuosamente sempre foi inimigo das “constituições burguesas” do tipo que temos nos Estados Unidos e na Califórnia. Perguntei a dois outros alunos graduados, que eram esquerdistas convictos, como eles podiam em sã consciência fazer o juramento. Ambos deram a mesma resposta: “Oh, esse juramento é uma piada”. E por que eles deveriam levar esse juramento a sério se ninguém mais levava? Nem a administração e nem a faculdade impunham o juramento; ao contrário, eles facilitavam sua aniquilação — ou covardemente faziam vistas grossas. Se você quiser saber como nossas universidades foram capturadas pelos inimigos da América, essa é a resposta. Com certeza quase absoluta, a vasta maioria dos professores da UCI que se opuseram ao banimento da bandeira americana estão apenas interessados na prevenção de um escândalo maior; pois se o público olhasse com atenção no assunto, veria que a universidade é uma das várias escolas de traidores. E o traidor astuto sabe como se esconder atrás da bandeira. Remover a bandeira seria um convite a um olhar mais minucioso. Sim, é preciso um traidor...
Mas quem lucra com essa traição? Quem a aproveita? Que poder pretende tomar o lugar da América ao colocar americano contra americano? E aqui estamos novamente em Moscou, onde uma misteriosa frota de caminhões rondou a Praça Vermelha na sexta-feira 13 de março. Putin não apareceu em público por dez dias. Sergei Ivanov, Chefe da Administração Presidencial Russa, não foi (comprovadamente) visto desde 27 de fevereiro. Sergei Stepashin, o Quebrador de Galhos do Império, voou para os Urais alguns dias atrás sob algum pretexto — sim, aquelas montanhas estratégicas onde se encontram tantas cidades e bunkers subterrâneos. Enquanto isso, diz-se que o primeiro ministro da Coreia do Norte chegou à Rússia. Então, como interpretamos essas ações? Bem, essa misteriosa frota de caminhões pode ser explicada pelo súbito surgimento de uma plataforma gigante na Praça Vermelha com assentos para milhares de pessoas. O evento planejado, é claro, é provavelmente o primeiro aniversário da anexação da Crimeia. Foi dito ao público e à mídia russa para esperarem um grande “anúncio” do Kremlin no próximo fim de semana (N.T.: O artigo foi escrito dia 15 de março). Talvez o anúncio já tenha vindo na noite de domingo, 14 de março, na forma de um documentário “bomba” feito para a televisão em que o presidente Vladimir Putin retrata a revolução ucraniana do ano passado como um violento golpe “arquitetado pelos nossos amigos americanos”. O líder russo acusou os Estados Unidos de armar e treinar insurgentes nacionalistas no oeste da Ucrânia, na Polônia e na Lituânia. De acordo com Putin, há boas razões para temer um ataque aberto dos EUA à Rússia. Atento ao perigo, Putin disse estar preparado para armar as ogivas nucleares russas.
Evidentemente, tudo isso é mentira. Não há qualquer plano americano de armar os revolucionários ucranianos e não há qualquer evidência que o presidente Obama planejou ou autorizou uma tentativa de golpe em Kiev. O que aconteceu na Ucrânia foi, ao que parece, um evento espontâneo. Sim, os vitoriosos manifestantes da praça Maidan buscaram os conselhos de oficiais americanos. E sim, esses oficiais foram estúpidos o suficiente para se colocar em discussões acerca da formação de um novo governo ucraniano. Mas em tudo isso não houve golpe americano. Falando francamente, o governo dos Estados Unidos e o seu povo não estão particularmente interessados na Ucrânia ou na Rússia. Aceitem isso deste que escreve sobre o assunto: aqui há pouco interesse nisso. O consenso aceito há muito tempo é que a Rússia não importa, e não há qualquer motivação séria para fazer algo contra a Rússia. Washington D.C. está preocupada com outros assuntos. Então é o caso de dizer a Vladimir Putin: “Não se trata da sua pessoa”.
Por mais que queiramos mais atenção dada às promessas quebradas pelas revoluções anticomunistas de 1989-1991, somos realistas o bastante para saber que o governo americano não está interessado em provocar a Rússia. O que temos é um tipo de governo que quer contemporizar, um governo que está ateado a um caminho de desarmamento unilateral. É um governo que gostaria de implementar o socialismo nos Estados Unidos, e se esforça de todas as maneiras para tal. Isso sendo verdadeiro, acusar tal governo de intentos imperialistas sobre a Ucrânia — dada a pessoa de Barack Obama — é simplesmente incrível. Barack Obama não faz a mínima questão de esconder que odeia o exército americano tanto quanto Putin. Em relação a isso, em seis anos ele fez mais para solapar o poderio militar americano do que Putin fez em quatorze. A ideia de que Barack Obama está fundamentalmente em desacordo com Moscou é desmentida por aquele vídeo gravado quando os presidentes russo e americano conversavam durante um encontro sobre armas nucleares em 2012. “Essa é minha última eleição”, disse Obama. “Após minha eleição terei mais flexibilidade”. O presidente americano estendeu seu braço e colocou sua mão sobre o braço de Medvedev. O russo então respondeu: “Entendo. Transmitirei essa informação para Vladimir”.
Hoje Vladimir espera que acreditemos que Obama esteve planejando a destruição da Rússia. Sim, o mesmo Obama que mandou de volta um busto de Churchill; o mesmo Obama que detesta Netanyahu. Sim, aquele Obama — o flexível negociador prestes a dar a bomba ao Irã e cuja meta é “zero bombas” para a América. Sim, é esse homem que está arquitetando a destruição da Rússia. E não duvide que essa mentira incrivelmente estúpida será crida por milhões, pois ouviu-se em algum lugar que o complexo militar-industrial americano está em ação. O que esses milhões não veem, e talvez jamais verão, é que todo ditador culpa sua vítima por aquilo que ele está prestes a fazer; assim como Napoleão culpou a Inglaterra de desejar dominar a Europa; assim como Hitler culpou os judeus por tentarem provocar uma Segunda Guerra Mundial; assim como os comunistas culparam o Ocidente de ter desencadeado a Guerra Fria. O que quer que o ditador diga que sua vítima está planejando fazer, a psicologia totalitária indica que o próprio ditador é quem está tentando fazer!
Então é um sinal péssimo quando um ditador russo aparece na televisão para acusar a América de tentar destruir a Rússia. Ele está aí justificando retoricamente ações futuras contra a América. Desse ponto em diante, seja qual for o disparate diversionista que vier pela sua televisão, o verdadeiro discurso trata-se de bunkers, ogivas e mísseis. Então, os traidores que queriam remover a bandeira americana do campus da UC Irvine podem agora serem vistos como uma consequência de algo que já operou sua mágica; algo que já desarmou a vítima de um tirano russo que explicou publicamente porque pode ser necessário varrer os Estados Unidos do mapa.
Mesmo quando essa mentira incrivelmente estúpida for acreditada, haverá bolsões de descrença — até mesmo continentes inteiros de descrença! Não é possível, como disse Abraham Lincoln, “enganar todas as pessoas o tempo todo”. Uma mentira incrivelmente estúpida, mesmo vestida como se fosse Sartor Resartus, com alguém fingindo ser o Professor Diógenes Teufelsdröckh, ainda assim poderia ser reconhecida como mentira (especialmente por aqueles que mantiveram o senso comum). Em 2009, o “filósofo” político e pretenso Teufelsdröckh, Aleksandr Dugin, lançou um livro intitulado A Quarta Teoria Política. O livro foi claramente escrito com o propósito de justificar uma futura guerra global contra os Estados Unidos. Dugin é um representante oficial dos partidários bélicos do Kremlin. Ele é um indivíduo vil e nefasto; e ano passado circulou uma petição na Moscow State University dizendo: “Exigimos que o Professor A. G. Putin seja demitido da faculdade”. A petição foi assinada por cerca de 10.000 alunos (que Deus os abençoe) antes de ser mandado à reitoria da universidade. Os detalhes da saída de Dugin da MSU permanecem obscuros, exceto o fato de que ele não leciona mais lá. Isso evidentemente serve para ilustrar que, até mesmo na Rússia, pessoas normais podem prevalecer sobre sujeitos malignos e desajustados. Há boas pessoas na Rússia, assim como há boas pessoas na América, e essas pessoas têm os mesmos objetivos e aspirações (independente se Putin venha a dizer o contrário).
Até o momento, o experimento de Dugin falhou. Suas justificações acadêmicas para varrer os Estados Unidos do mapa foram deixadas de lado por Putin, que por sua vez adotou uma abordagem mais prática e televisiva. Os experts em propaganda entenderam há muito tempo que o público suspeita de argumentos complicados, provas intelectuais e minúcias acadêmicas. O público quer algo que fale direto ao coração. Ele prefere, acima de tudo, uma performance diante das câmeras; e Putin trouxe essa performance. Quem precisa de argumento intelectual quando as velhas mentiras sempre são trocadas por novas? É trabalhoso demais introduzir a simulação de rigor intelectual num processo desses. Ademais, devemos concluir que os alunos russos da MSU — embora inclinados a um patriotismo — conhecem um vilão quando veem um. O patriotismo desses alunos não consiste numa bomba de hidrogênio caindo sobre Washington D.C. Como crianças do pós-Guerra Fria, esses alunos veem o mundo com olhos normais. Os melhores deles sabem que a América deseja o bem deles, ou seja, que a América não tem plano de destruí-los. Eles obviamente sabem que ninguém na América está pregando a guerra. Ninguém se tornaria popular pregando isso. Isso em si não é uma prova? Porquanto, nossos Dugins — nossos psicopatas políticos — estão basicamente dizendo a mesma coisa que Dugin estava. Ao votar o banimento da bandeira americana de um campus americano, esses sujeitos se alinharam com o bichinho de estimação acadêmico de Putin. É simples assim. Ninguém nos Estados Unidos quer bombardear a Rússia, pois nossos loucos políticos estão no mesmo mundo dos loucos políticos russos. Todos esses loucos concordam que o país marcado para ser destruído é a América, e não a Rússia.
Isso ficou claro? É indubitavelmente a chave para entender a coisa toda.
Embora a América seja um país com todas as faltas que atingiram vários povos, ela ainda assim é um símbolo de liberdade. Mais precisamente, é um experimento em liberdade onde um cidadão comum pode viver uma vida decente; onde a voz do fanático político é emudecida e o ideólogo é visto com desconfiança; onde até o demagogo deve refrear-se e aceitar dançar conforme a música. O desajustado totalitário que busca uma existência gloriosa não acha apoio nesse tipo de política. Se ele disputar cargos e for eleito, ele é aviltado pelos críticos e forçado pelo suborno. No melhor dos casos, ele pode corromper o mecanismo constitucional em alguns pequenos pontos, ou pode promover alguma legislação danosa. Mas ele não pode tornar-se ditador sem expor-se ao risco de prisão e processo. O poder não está lá para ser possuído; não há glória, pois o político sedento de glória tem como destino final a humilhação. Até mesmo a carreira presidencial mais promissora, com altos índices de aprovação, pode ser arruinada pela imprensa. Clinton, Bush e Obama — todos presidentes de dois mandatos — terminaram seus oito anos como patos mancos que se viram num meio sufocante de críticas e escândalos. Um sistema político desses parece uma prisão para um totalitário. Para os demais, a liberdade se concretiza quando humilhamos nossos mais poderosos políticos. O povo está livre enquanto a classe que busca o poder vive num aquário. Marxistas, nazistas e muçulmanos fanáticos odeiam esse tipo de sistema e sonham em reduzi-lo a frangalhos, pois todas essas ideologias não se tratam de ideias, mas sim de poder e de estar no centro das atenções. Então não é surpreendente que os desajustados, aqui e na Rússia, estejam em consonância. Todos eles odeiam a América. Como escreveu Sam Vaknin em seu livro Malginant Self Love:
O narcisista é um pêndulo humano pendurado por um fio que é um falso si-mesmo. Ele oscila entre a brutalidade cruel e abrasiva e o sentimentalismo doce, melífluo e até piegas. É tudo simulacro, verossimilhança, fac-símile: o bastante para enganar o observador casual e extrair a cobiçada droga: a atenção das outras pessoas, aquela imagem que, de alguma maneira, sustenta seu frágil castelo de cartas...
O narcisista pensa resolutamente — embora vá contra a realidade dos fatos — ser um tipo onipotente, onisciente, onipresente, brilhante, talentoso, irresistível, imune e invencível. Qualquer informação que vá de encontro a isso é filtrada, alterada ou completamente descartada.
Na verdade, chamar uma pessoa dessas de “desajustada” é eufemismo. O narcisista e o psicopata alternam entre os violentos ataques e a “inveja patológica e torturante”. No fundo de si, o desajustado se odeia e duvida do seu valor. Isso ajuda a explicar sua necessidade de poder total como forma de total e desobstruída auto-afirmação. “Narcisistas buscam novas vítimas pela mesma razão que tigres buscam novas presas: eles estão famintos e precisam constantemente de adoração, admiração, aceitação e aprovação”, escreveu Vaknin. O poder político, para tal pessoa, é como um bálsamo. “Muitos narcisistas acabam por ser delirantes, esquizóides ou paranóicos”, acrescenta Vaknin. E alguns narcisistas entram na política, entram num movimento totalitário ou numa gangue — e tornam-se ditadores. Esses são os maiores e mais perigosos dos tigres.
Então, o desajustado como político totalitário (Putin), sendo do tipo criminoso, encontra escudeiros intelectuais (Dugin) para inventar vangloriosas teorias políticas (como a Quarta Teoria Política), que servem em todos os lugares de desculpas para um ataque à sociedade normal, à liberdade e ao bem-estar do cidadão médio. Para esse fim, e tendo em mente a simplificação, a América é o bode expiatório natural dessas pessoas, a vítima desejada, o objeto de inveja e desdém, e o foco da estratégia malevolente.  No dia 15 de março, na televisão russa, o presidente-anão, demonstrando sua virilidade termonuclear como meio de compensação, mostra ser mais um desses malditos tolos desajustados — como o fragmentário Stálin ou o minúsculo Lênin. Talvez o que se precisa é um sujeito grande e robusto para varrer do palco russo essa raça malevolente de anões. Talvez Boris Nemtsov seria esse sujeito, mas Boris foi baleado nas ruas de Moscou. Foi dito que o assassino baleou-o quatro vezes nas costas. O covarde fundamental obviamente não é aquele que atirou num homem desarmado pelas costas. O covarde fundamental é certamente aquele mesmo pigmeu totalitário que esteve na TV russa culpando a América, e cujo regime é marcado por muitos assassinatos políticos. É triste que a ausência astutamente encenada de Putin tenha apagado Nemtsov da memória pública e colocado ele próprio no centro das atenções; e sim, Vladimir, todas as atenções têm de estar sobre você, não? Sim, sim. Na América, assim como na Rússia, é preciso um traidor e um desajustado.

Tradução: Leonildo Trombela Junior Fonte:midiasemmascara

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